Machado de Assis - Ressurreição



CAPÍTULO XX / UMA VOZ MISTERIOSA


Félix estacou à porta da sala. Luís Batista deu dois passos para ele.

— Nunca me ofereceu a sua casa, disse, e a minha indiscrição vem reparar o seu esquecimento.

Era um gracejo ou um remoque? Félix limitou-se a apertar a mão que o outro lhe estendia e convidou-o a sentar-se.

— Disseram-me que estava almoçando, observou Batista; não quero de nenhum modo interrompê-lo. Vá, e eu ficarei aqui folheando algum livro.

— Ia começar a almoçar, respondeu o médico; se quiser almoçaremos juntos.

— Não; se me consente, visto que ainda está solteiro, irei familiarmente assistir ao seu almoço, e então lhe exporei o motivo que aqui me traz.

Félix convidou-o a entrar e ambos se sentaram à mesa. As primeiras frases trocadas foram acanhadas e frias, mas as maneiras livres do hóspede conseguiram abalar a reserva do dono da casa.

— É verdade, disse Batista, ouvi dizer que ia casar...

— Amanhã.

— Assisto portanto ao seu penúltimo almoço de rapaz solteiro. Há muita gente que ainda não acredita. Creio que o senhor tinha fama de celibatário convencido, e pela regra, um celibatário convencido é um noivo à mão.

Também eu era assim; e contudo... O casamento é bom; tem seus inconvenientes, como tudo neste mundo; mas é bom, com a condição única de

o aceitarmos como ele deve ser...

— Um pouco livre? disse Félix sorrindo.

— Não sei se pouco ou muito, é questão de temperamento. O essencial é que seja livre. Eu assim o entendo e pratico; sou um pecador miserável, confesso, mas tenho ao menos o mérito de não ser hipócrita, e agora mesmo...

— Agora mesmo? repetiu Félix depois de alguns instantes de silêncio.

— Não sei se deva contar-lhe isto; o senhor é ainda neófito, vai naturalmente aborrecer-me e amaldiçoar-me... Mas, em suma, é indispensável que eu lhe diga tudo, porque isso prende com o motivo que me traz à sua casa.

Batista aceitou uma xícara de café que o médico lhe ofereceu. Depois, com um modo acintemente leviano, referiu ao dono da casa uma aventura amorosa daqueles últimos dias. Tratava-se de uma mulher caprichosa e requestada. Seu triunfo era portanto duas vezes glorioso. Como beleza, desafiava ao próprio médico a resistir-lhe depois de meia hora de contemplação. Achar-seiam, talvez, outras mulheres mais formosas; nenhuma, porém, tinha como essa o misterioso encanto que sabe agrilhoar a vontade mais rebelde.

— Quando ela me fita os seus grandes olhos, continuou pinturescamente Luís Batista, é o mesmo que se me entornasse chumbo derretido nas veias.

Todo o estilo da sua descrição era assim, — galhofeiro e sensual. Falou durante vinte minutos com o entusiasmo próprio da sua situação. Félix ouvia pacientemente a narração do hóspede, sem atinar com a relação que teria aquilo com o pedido que lhe ia fazer. Interiormente estava aborrecido. Não fora o médico em sua longa vida de rapaz solteiro nem casto nem cauto; mas a atmosfera do noivado começava a arejar-lhe o espírito, e semelhante confidência, naquela ocasião, lhe parecia de todo ponto extravagante.

— Não desconheço, disse Luís Batista quando concluiu a sua expansão amorosa, não desconheço que uma aventura destas, em véspera de noivado, produz igual efeito ao de uma ária de Offenbach no meio de uma melodia de Weber. Mas, meu caro amigo, é lei da natureza humana que cada um trate do que lhe dá mais gosto. A vida é uma ópera bufa com intervalos de música séria. O senhor está num intervalo; delicie-se com o seu Weber até que se levante o pano para recomeçar o seu Offenbach. Estou certo de que virá cancanear comigo, e afirmo-lhe que achará bom parceiro.

Dizendo isto, Luís Batista engoliu o resto, já frio, do café que tinha na xícara, acendeu de novo o charuto, e recostou-se na cadeira. Félix teve tempo de reassumir a atitude tranqüila que as últimas palavras de Batista lhe haviam alterado.

— Enfim, disse ele, que ligação há entre essa aventura e o pedido que me vai fazer?

— Toda, respondeu Batista; se ela não existisse, eu não viria pedir-lhe nenhum favor. O senhor sabe o que é um capricho de mulher amante; não ignora também que o menor desejo dela é uma ordem para o cavalheiro seu escolhido.

— Pois bem, continuou Batista. Estamos nesse caso. Ela é extremamente

caprichosa, e mais ainda que caprichosa, é amante de coisas d'arte. Há dias fui achá-la aborrecida. Interroguei-a; nada me quis dizer. Pela conversa adiante falou-me duas ou três vezes numa gravura que vira na Rua do Ouvidor, e que o dono vendera quando ela lá voltou, disposta a comprá-la. O assunto era o mais ortodoxo possível: a israelita Betsabé no banho e o rei Davi a espreitá-la do seu eirado. Não lhe parece galante? A gravura creio que era finíssima; mas tinha, além disso, um merecimento para a pessoa de quem lhe falo: é que a figura de Betsabé era a cópia exata das suas feições. Vaidade de moça bonita. Mostrava-se tão desconsolada quando falava naquilo que facilmente percebi não ser outro o motivo do aborrecimento em que a fui encontrar.

— E então?

— Fiz o que faria qualquer outro. Era necessário que a todo o transe ela possuísse um exemplar da gravura. Fui procurá-lo, e não achei. Gastei dois longos dias nessas pesquisas, e quando voltei à casa dela não tive remédio senão tirar-lhe a última esperança. Ela apertou-me afetuosamente as mãos, e agradeceu-me o trabalho, dizendo-me que era mais uma prova de amor que lhe dava; concluiu, porém, tudo isso com um suspiro. Eu não me atrevo a dizer ao senhor o que quer dizer um suspiro neste caso; aquele suspiro era uma insistência do desejo.

— Parece que sim, disse Félix que já adivinhara o final da exposição.

— Dir-me-á o senhor, continuou Batista, que eu devia aproveitar o paquete que partiu ontem e mandar vir da Europa a gravura. Não duvidaria fazê-lo, e ela esperaria de boa vontade; mas quem pode afirmar que o meu amor dure até à volta do paquete? Tive então uma idéia salvadora.

—Ah!

— Voltei à loja onde ela vira a gravura e inquiri do dono da casa quem lhe havia comprado. Depois de algum trabalho de memória disse-me que fora o senhor. A princípio hesitei se devia importuná-lo. O pedido não seria indiscreto em qualquer outra ocasião; mas, quando o senhor está para tomar um estado moral, rogar-lhe que me ajude a enxugar as lágrimas de uma bela pecadora, é mais que indiscrição, é atrevimento. Hesitei, a voz da razão era mais fraca que a do pecado, e venceu o pecado.

Luís Batista calou-se, esperando a resposta do médico. Houve um largo silêncio. Levantaram-se da mesa e foram para a sala, sem que Félix desse a resposta. Luís Batista foi o primeiro que tornou ao assunto.

— Não me pode fazer o que lhe peço? disse ele.

— Tenho estado a perguntar a mim mesmo se me é lícito fazê-lo, respondeu Félix sorrindo, e se ao entrar nas fileiras do matrimônio devo ajudar a deserção de um camarada.

Luís Batista estava naquele dia singularmente falador. A simples observação do médico deu azo a um largo discurso a respeito do regímen matrimonial. Era meio-dia. Félix estava já fatigado da visita e da palestra. Aproveitou um interstício para dizer:

— Em suma, tem grande desejo de possuir a gravura?

— Queria que ma cedesse.

— Faço-lhe presente dela.

— Eu não desejava de nenhum modo prejudicá-lo, disse Batista; há de consentir então que eu lhe faça um presente de noivado.

Félix fez um gesto afirmativo.

Félix não respondeu; foi buscar a disputada gravura e trouxe-lha. Luís Batista não pôde reter um grito de surpresa. A figura de Betsabé, dizia ele, parecia realmente uma cópia da sua dama. A dama era talvez mais formosa do que a cópia.

Foi nesse momento que trouxeram ao médico uma carta, entregue pelo correio. Félix abriu-a distraidamente, mas tanto que lhe leu o conteúdo ficou muito pálido e encostou-se a uma cadeira. Com a mão trêmula aproximou o papel dos olhos, enquanto os dentes mordiam os lábios até deitar sangue. Luís Batista aproximou-se rapidamente de Félix e perguntou-lhe o que tinha.

— Nada, disse o médico, uma vertigem apenas... Há de dar-me licença, preciso estar só.

O hóspede curvou-se, sorriu e saiu.

Félix encerrou-se no seu quarto. Do que lá se passou ninguém de casa soube: algum rumor se ouvia de quando em quando, mas abafado, e uma ou outra exclamação vaga e solta. Eram quatro horas quando o médico saiu à sala.

O tempo tinha melhorado. O sol reaparecera entre duas nuvens, dando de chapa nas árvores molhadas de chuva e nos telhados que escorriam um resto de água. Dissera-se que a natureza queria fazer outro contraste ao inverso do da manhã, porque, se a tarde sorria alegre, o homem dava sinais de tempestade interior. Tinha os olhos vermelhos, a boca contraída, os cabelos em desordem. Saiu com passo vacilante. De quando em quando, colhia o alento com a expressão de quem lhe custa respirar. Um escravo, a que ele deu algumas ordem, reparou no estado do senhor, e perguntou-lhe se estava doente. Félix respondeu secamente que não. O escravo abanou a cabeça e saiu.

Félix escreveu em seguida uma carta que sobrescritou para a viúva. Vestiu-se depois. Não tardou que lhe parasse um carro à porta. Meteu-se nele e mandou tocar para a cidade.


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