Machado de Assis - Memorial de Aires



21 de setembro


Ao sair hoje de casa, vi passar na rua, do lado oposto, a irmã do corretor Miranda, D. Cesária, tão risonha que parecia falar mal de mim, mas não falava, ia só, — ou falava de mim consigo; mas só consigo não teria tanto prazer. Cumprimentamo-nos e seguimos.

22 de setembro

...encantadora Fidélia! Não escrevo isto porque a deseje, mas porque é assim mesmo: encantadora! Pois não é que esta criatura de Deus, encontrando-se comigo de manhã, veio agradecer-me a companhia que fiz aos seus amigos do Flamengo, na noite de 18?

— Não tive merecimento nisso; fui lá, achei-os sós, passei a noite.

— Isso mesmo. D. Carmo disse-me que, se não foi uma noite cheia, foi só por lhe faltarmos o Dr. Tristão e eu, mas que, ainda assim, o senhor teve o dom de nos fazer esquecer.

Sorri incredulamente, depois expliquei o caso, dizendo que, se os fiz esquecer, foi por serem eles o próprio assunto da conversação...

— Isso é que ela não me disse, interrompeu Fidélia espantada.

— Nem dirá; nem lho pergunte. O melhor é crer que eu, com os meus cabelos brancos, ajudei a encher o tempo. A senhora não sabe o que podem dizer três velhos juntos, se alguma vez sentiram e pensaram alguma coisa.

— Sei, sei, já tenho visto e ouvido os três.

— Mas nessas ocasiões a senhora dá outra nota recente e viva à conversação.

Era verdade e era cumprimento; Fidélia sorriu agradecida e despediu-se. Eu — aqui o digo ante Deus e o Diabo, se também este senhor me vê a encher o meu caderno de lembranças, — eu deixei-me ir atrás dela. Não era curiosidade, menos ainda outra coisa, era puro gosto estético. Tinha graça andando; era o que lá disse acima: encantadora. Não fazia crer que o sabia, mas devia sabê-lo. Ainda não encontrei encantadora que o não soubesse. A simples suposição de o ser tenta persuadir que o é.

No Largo de São Francisco estava um carro dela, perto da igreja. Íamos da Rua do Ouvidor, a dez passos de distância ou pouco mais. Parei na esquina, vi-a caminhar, parar, falar ao cocheiro, entrar no carro, que partiu logo pela travessa, naturalmente para os lados de Botafogo. Quando ia a voltar dei com o moço Tristão, que ainda olhava para o carro, no meio do largo, como se a tivesse visto entrar. Ele vinha agora para a Rua do Ouvidor, e também me viu; detive-me à espera. Tristão trazia os olhos deslumbrados, e esta palavra na boca:

— Grande talento!

Percebi que se referia ao talento musical, e nem por isso fiquei menos espantado; quase me esqueceu concordar com ele. Concordei de gesto e de palavra, sem entender nada. Também eu gosto de música, e sinto não tocar alguma coisa para me aliviar da solidão; entretanto, se fosse ele, e apesar de todos os Schumanns e seus êmulos, ao vê-la parar no Largo de São Francisco e entrar no carro, não soltaria a mesma exclamação, antes outra, igualmente estética, é verdade, mas de uma estética visual, não auditiva. Não entendi logo.

Depois, quando nos separamos na esquina da Rua da Quitanda, entrei a cogitar se ele, ao dar comigo, compôs aquela palavra para o fim de mostrar que, mais que tudo, admira nela a arte musical. Pode ser isto; há nele muita compostura e alguma dissimulação. Não quis parecer admirador de pés bonitos; referiu-se aos dedos hábeis. Tudo vinha a dar na mesma pessoa.

30 de setembro

Se eu estivesse a escrever uma novela, riscaria as páginas do dia 12 e do dia 22 deste mês. Uma novela não permitiria aquela paridade de sucessos. Em ambos esses dias, — que então chamaria capítulos, — encontrei na rua a viúva Noronha, trocamos algumas palavras, vi-a entrar no bonde ou no carro, e partir; logo dei com dois sujeitos que pareciam admirá-la. Riscaria os dois capítulos, ou os faria muito diversos um de outro; em todo caso diminuiria a verdade exata, que aqui me parece mais útil que na obra de imaginação.

Já lá vão muitas páginas falei das simetrias que há na vida, citando os casos de Osório e de Fidélia, ambos com os pais doentes fora daqui, e daqui saindo para eles, cada um por sua parte. Tudo isso repugna às composições imaginadas, que pedem variedade e até contradição nos termos. A vida, entretanto, é assim mesmo, uma repetição de atos e meneios, como nas recepções, comidas, visitas e outros folgares; nos trabalhos é a mesma coisa. Os sucessos, por mais que o acaso os teça e devolva, saem muita vez iguais no tempo e nas circunstâncias; assim a história, assim o resto.

Dou estas satisfações a mim mesmo, a fim de mencionar o meu joelho doente, tal qual o de D. Carmo. Outra paridade de situações... Há duas diferenças. A primeira é que nela o mal é puro e confessado reumatismo. Em mim também, mas o meu criado José chama-lhe nevralgia, ou por mais elegante ou por menos doloroso; é um dos seus modos de amar o patrão. A segunda diferença...

A segunda diferença, — ai, Deus! a segunda diferença é que, ainda que lhe doa muito o joelho, D Carmo lá tem o marido e os dois filhos postiços. Eu tenho a mulher embaixo do chão de Viena e nenhum dos meus filhos saiu do berço do Nada. Estou só, totalmente só. Os rumores de fora, carros, bestas, gentes, campainhas e assobios, nada disto vive para mim. Quando muito o meu relógio de parede, batendo as horas, parece falar alguma coisa, — mas fala tardo, pouco e fúnebre. Eu mesmo, relendo estas últimas linhas, pareço-me um coveiro.

Mana Rita não me veio visitar, porque não sabe nada, e provavelmente não tem saído; sei que está boa. O meu mal começou há sete dias. Durmo bem às noites, mas não me faz bem andar, dói-me. Amanhã, se não acordar pior, saio.

2 de outubro

Estou melhor, mas choveu e não saí.

3 de outubro

— Foi um duelo entre mim e a velhice, que me disparou esta bala no joelho; uma dor reumática. Já sei que vem jantar comigo?

O desembargador respondeu que não; disseram-lhe que eu estava doente e vinha saber o que era. D. Carmo também está melhor do joelho, disse-me. Já sai, mas pouco, pela Praia do Flamengo, até à do Russell.

— Sempre com a amiguinha, não?

— Nem sempre; lá tem o seu Tristão que a acompanha de manhã. Fidélia manda-lhe visitas, e pode ser que Aguiar venha cá hoje; souberam ontem, à noite, como eu.

Logo depois contou-me Campos que a sobrinha queria ir passar algum tempo à fazenda.

— Os libertos, apesar da amizade que lhe têm ou dizem ter, começaram a deixar o trabalho, e ela quer ver como está aquilo antes de concluir a venda de tudo.

Não entendi bem, mas não me cabia pedir explicação. Campos incumbiu-se de me dizer que também ele não entendia bem a idéia da sobrinha, e acrescentou que, por gosto, ela partiria já. A doença de D. Carmo é que a fez aceitar o que lhe propôs o tio, a saber, que adiassem a viagem para as férias.

— Iremos pelas férias, concluiu ele; provavelmente já o trabalho estará parado de todo; o administrador, que não tem tido força para deter a saída dos libertos até hoje, não a terá até então. Fidélia cuida que a presença dela bastará para suspender o abandono.

— Logo, se for mais depressa... aventurei eu, querendo sorrir.

— Foi o argumento dela; eu creio que não será tanto assim, e, como tenho de a acompanhar, prefiro dezembro a outubro. Quer-me parecer que ela teme menos a fuga dos libertos que outra coisa...

Não acabou; levantou-se para consertar um laço da cortina, e voltou coçando o queixo e olhando para o teto. Sentou-se e cruzou as pernas. Eu, para me não deixar ir a perguntas, peguei do gesto do desembargador, dizendo-lhe que ele acabava de fazer com as pernas o que ainda me custaria um pouco; mas foi como se falasse à cortina, ao laço ou à palhinha do chão. Campos não me respondeu nem provavelmente me ouviu. Ergueu-se, disse que estimava as minhas melhoras e despediu-se até breve. Teimei que jantasse.

— Não posso; tenho gente de fora; o Tristão janta comigo.

Para lhe mostrar que convalescia, fui ao patamar pisando rijo. Agradeci-lhe o obséquio da visita, e tornei à sala, com a viúva diante dos olhos, caminho da fazenda. Mas que terá que a faça ir meter-se na fazenda, com meia dúzia de libertos, se ainda achar alguns? Pouco depois, outra visita, o Aguiar, que me trazia lembranças da mulher. Estimou ver-me de pé, no meio da sala.

— Não valia a pena, disse-lhe; foi uma coisa de nada, estou quase bom, e hoje mesmo, se a chuva parar, como está querendo, lá vou levá-lo à casa, depois do jantar. Janta comigo?

— Não posso; tenho gente de fora. Uma das pessoas não me impediria, é a Fidélia, que lá janta conosco, e é quase da família. Mas vai também um colega do banco.

— Pois irei tomar chá.

— Vá, se quer, mas não faça isso, é o meu conselho. Ainda que não chova, sempre haverá umidade, e para reumatismo...

— Mas D. Carmo tem saído, creio.

— Tem, e pode-se dizer que está boa. Apesar disso, já hoje não saiu, por causa do tempo. Vá, se quer; eu no seu caso não saía.

Aguiar não disse mais nada, e despediu-se. Pareceu-me (ou foi ilusão) que ele queria acrescentar alguma coisa e não acabou de querer. Não sei que seria. Não sentisse eu mesmo algum medo da umidade e iria vê-los à noite, mas a umidade é certa, e creio que a chuva também. Fico em casa. Se aparecer algum enxadrista, jogarei xadrez; se apenas jogar cartas, cartas. Se não vier ninguém, atiro-me a compor um poema de cabeça.

6 de outubro

Mana Rita, mana Rita Foi a última visita,

e o resto do poema em prosa, que a minha musa não dá para mais. Foi assim que o compus, não na outra noite, a de 3, mas na de hoje, 6, depois de levar a mana a Andaraí. Apareceu-me aqui de manhã. Já outros, amigos e até indiferentes, me tinham visitado, como aquele Dr. Faria, que me deixou lembranças da mulher, e o corretor Miranda, que também mas trouxe da sua. Tristão esteve cá anteontem, e eu saí à tarde e ontem de manhã. Estou bom, nem por isso deixei de lhe chamar ingrata. Rita confessou-me que há mais de três semanas não sai de casa para ver se tinha um irmão que se lembrasse dela.

— Tinha e tem, retorqui-lhe, mas um irmão que só agora convalesceu de todo.

Contei-lhe a dor e a reclusão. Rita, que a princípio não queria crer e ria, acabou convencida e contristada. Censurou-me naturalmente; eu disse-lhe que continuava a guardá-la para a doença mortal e última. Assim trocamos muitas palavras amigas e doces, algumas alegres. Como lhe perguntasse se estivera com a gente Aguiar ou com a família Campos, respondeu-me que não. Se fosse a uma daquelas casas teria sabido do meu incômodo, e não receberia a notícia aqui, acrescentou.

— Então você não sabe nada do projeto de ir à fazenda? perguntei-lhe.

— Projeto de quem?

— Da viúva Noronha.

— Ir à fazenda?

— Sim, ir a Santa-Pia, para ver como andam lá as coisas; parece que os libertos estão abandonando a roça. Foi o que me disse o tio da viúva.

— Não ouvi dizer nada. Há perto de um mês que não saio de casa. Mas

o tio por que não vai?

— O tio vai, mas é com ela; a sobrinha quer a companhia dele, mas só a companhia, parece, não quererá também a colaboração. Vão pelas férias. Eu não compreendo esta necessidade de ir ela mesma, quando era melhor um homem.

Rita quis ir saber da própria Fidélia. Ponderei-lhe que era indiscreto, e faria crer da nossa parte alguma curiosidade. Saiu a voltas, e tornou. Confesso uma coisa; depois que a vi sair imaginei se teria ido saber da viúva ou dos amigos a verdadeira causa da viagem, e disse-lho ao jantar. Ela ficou séria e abanou a cabeça. Se me tem jurado que não, é provável que me enterrasse o espinho da dúvida, mas falou com simplicidade, e nomeou as visitas que fez. Uma delas foi a D. Carmo.

— Carmo está sã como um pêro, disse-me; recebeu-me rindo como só ela sabe rir, um rir de dentro, tão simples, tão franco... Falamos de Fidélia, falamos de Tristão, ela com a ternura e amizade que você já lhe tem visto.

— Ainda não sabe da viagem à fazenda?

— Sabe, e parece que nem esperam as férias; é daqui a dias. Sabe da viagem e do motivo, e aprova; diz que a viúva tem muito prestígio entre os libertos. Se pudesse iria também, mas Aguiar não ficaria só, e ele não pode deixar agora o banco.

— Mas ele não ficaria só; o Tristão aí está.

— Não, por duas razões; a primeira é que Tristão nem ninguém supre a boa Carmo. A viagem que ela fez este ano a Nova Friburgo custou muito ao marido. Não foi ela que me disse isto; eu é que soube, e percebe-se, todos sabem; Aguiar sem Carmo é nada. A segunda razão é que o próprio Tristão está com vontade de acompanhar o desembargador e Fidélia; nunca viu uma fazenda, e tem vontade, antes de voltar para Lisboa...

— E a nossa amiga, diante desse eclipse dos dois, não está aborrecida?

— Foi o que lhe perguntei; disse-me que é por poucos dias, e espera; em todo caso, se houver demora dos outros, Tristão virá embora. Quer passar com ela e o marido o mais tempo que puder.

Mana Rita (percebe-se) está com vontade de achar algum defeito grande no afilhado do Aguiar, mas não acha nenhum, grande ou pequeno, e pesa-lho. O bem que diz dele é repetição confessada do que ouviu. Eu não penso mal, antes bem, creio que já o escrevi em algumas destas páginas; mas não disse se bem nem mal. Deixei-me ficar a condenar o meu pobre jantar, que foi ruim, só o frango prestou e a fruta, menos as peras...

Ao café, mana Rita contou-me algumas anedotas de Andaraí, aonde a fui levar, seriam dez horas, e donde voltei para escrever isto, acabar e repetir como principiei:

Mana Rita, mana Rita, Foi a última visita.

10 de outubro

Entendam lá mulheres! Tanta necessidade de ir à fazenda e já. Campos alcança uma licença de alguns dias, Tristão apronta a mala, e, tudo feito, cessa a necessidade de partir. Foram só o Campos e o Tristão. Tal a notícia que me deram as duas (Carmo e Fidélia) hoje, à tarde, quando eu ia a entrar no jardim da casa do Flamengo. As duas vinham chegando ao portão.

— Não fui, confirmou Fidélia as primeiras palavras de D. Carmo. Um homem basta e sobra, e acaba depressa todas as dúvidas. Também as notícias agora são melhores.

— Lucram os seus amigos, retorqui.

D. Carmo disse o mesmo que eu, mas sem palavras, com os olhos apenas. Como iam a passeio, dispus-me a acompanhá-las, depois de algumas notícias que trocamos, D. Carmo e eu, sobre os nossos reumatismos; estamos bons. As duas iam de braço, eu ao lado, entre elas e o mar que não batia com força. A conversação não foi constante, porque a viúva levava os olhos no chão. A amiga falava-me, mas olhava de quando em quando para ela, e eu também. Fidélia falava pouco, e só então olhava para a outra.

O passeio foi curto; tornei com elas ao jardim, aonde pouco depois chegou Aguiar trazendo cartas de Lisboa para Tristão, três ou quatro. Conhecia a letra de uma, era do pai, e provavelmente havia dentro outra da mãe, tão volumosa era. A idéia de as mandar para Santa-Pia passara-lhe pela cabeça, mas recuou por não saber se o rapaz voltará amanhã ou depois, ou se ficará mais tempo. Se voltar já, espera; se ficar, manda-lhas. Queria consultar a mulher.

D. Carmo achou mais prático escrever-lhe um bilhete perguntando quando conta vir, para lhe mandar ou não a correspondência. Fidélia não sabia nada da volta do tio. Acha provável que fique alguns dias mais para dar as últimas providências e coligir as notas necessárias à venda da casa e das terras; ia vendê-las, por intermédio do Banco do Sul, mas nem ela nem Aguiar sabiam nada positivamente.

Eu, convidado a opinar, disse que o rapaz, sabendo de correspondência numerosa e presumindo alguma dela política, pediria logo a remessa, se não viesse abri-la em pessoa. A segunda hipótese não foi mal acolhida pela madrinha; pareceu-lhe certa. Ao cabo, que faria ele lá depois de ver a fazenda? A fazenda naturalmente via-se depressa, não tendo ele nenhuma coisa de recordação pessoal, ou costume velho que reviver. Assim disse eu, por outras palavras, e os dois concordaram comigo. Como perguntasse a Fidélia se não sentiria saudades da casa em que nasceu e se criou, respondeu-me que sim, mas já não terá gosto em lá viver.

— Aquilo agora é para mãos de homem, concluiu.

Estas palavras foram ouvidas por D. Carmo, com vivo prazer. Aguiar provavelmente teria a mesma sensação, mas saíra à calçada para falar a um vizinho, e não as ouviu. Quando voltou, achou que me despedia das duas senhoras, e nem por isso deixou de me pedir que ficasse e jantasse. Recusei, e saí. Andando, ouvi que ele dizia à mulher e à amiga:

— Quem sabe o que trarão estas cartas?

Em caminho, arrependi-me de não ter ficado para jantar. Ouviria o grande talento que arrancou a voz exclamativa ao Tristão. Não seria novo para mim, mas seria mais uma vez, conquanto pareça que ela anda a recusar-se agora ao piano. E verdade que talvez os dois a vão levar à noite a Botafogo. Também pode ser que ela durma ali hoje, em casa dos pais postiços.


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